Estava ansioso para assistir Her, fui ver o filme um dia depois da estreia no Brasil. Se você não conhece a história, Theodore (Joaquim Phoenix) é um ex-jornalista que trabalha escrevendo cartas sentimentais para outras pessoas, ele está em meio a um divórcio complicado e é um cara solitário, até comprar um software de inteligência artificial. O software assume a personalidade de uma mulher, Samantha (narrada por Scarlett Johansson), os dois se apaixonam e a história "explora a natureza do amor e as formas como a tecnologia nos isola e nos conecta".


A minha expectativa era grande porque é um filme que mira num tema que está relacionado ao meu trabalho e à minha vida (todas as vidas, na verdade): tecnologia e pessoas. De início pode não parecer, mas ele mira muito mais nas pessoas do que na tecnologia.

Sempre questionei sobre o nosso relacionamento com os dispositivos. De fato a tecnologia permite que possamos falar com mais pessoas, com mais frequência e dispondo de menos tempo. Mas ao mesmo tempo que falamos mais, nos afastamos mais. E moldamos mais o nosso comportamento.

Conhecer pessoas através da internet é muito mais fácil, podemos ser quem quisermos, como quisermos. E depois que já conhecemos, continuamos a moldar o que postamos para manter as aparências e sempre parecer melhor. Fazemos isso o tempo todo e é tão natural que as vezes nos esquecemos. A relação entre as pessoas tem sido diferente há um bom tempo.


O excelente artigo da Wired comenta que o futuro será muito mais como Her do que como em Minority Report. O nosso relacionamento com as máquinas se parecerá cada vez mais humano. A era da inteligência artificial já chegou até nós. Pense na Siri, do iOS. Nós já falamos — literalmente — com a tecnologia.

Teremos um mundo onde a tecnologia estará escondida. Ela já fará parte de nós e nem iremos perceber. Discretamente nos acompanhando. E é incrível como podemos sentir a presença da Samantha, mesmo que ela não apareça fisicamente. Ela está ali, só não podemos vê-la. Tudo é tão natural que esquecemos que ela é só um software.

O futuro retratado no filme já está acontecendo hoje, de maneira mais sutil. Ainda não temos computadores capazes de conversar e pensar tão bem quanto Samantha, mas o filme mostra como estamos cada vez mais egoístas, exigentes em relação aos outros e como é difícil expressar nossas emoções com empatia, estamos menos espontâneos. Tanto que Theodore trabalha numa empresa que escreve cartas sentimentais.

A culpa é nossa. Postamos nossa vida nas redes sociais como gostaríamos que ela fosse e não como ela realmente é, enquanto os outros fazem o mesmo. Quando chega a hora de um contato real nos frustramos com aquilo que encontramos. Não é a mesma pessoa tão legal e tão inteligente e tão intelectual que estava no perfil do Facebook. E não se engane, as duas partes se frustram, as duas esperam mais.
Her-Olivia
"Você não quer uma máquina que está sempre te dando a resposta. Você quer uma que se aproxime de você e que diga 'vamos resolver isso juntos'", comentou o designer de produção KK Barrett, responsável por estilizar o mundo onde a história se passa.

Nós esperamos isso das pessoas também.

De maneira geral, o filme traz boas reflexões sobre relacionamentos e sentimentos. Sobre como somos egoístas, como temos medo da solidão, medo da separação, das mudanças e das escolhas. E sobre como estamos nos relacionando com a tecnologia.